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Urticária

A urticaria é uma doença frequente?
Como se caracteriza a urticaria?
Qual o mecanismo de acção que leva à urticária?
Quais as causas que podem desencadear uma urticaria?
Como se faz o diagnóstico?
Em que consiste o tratamento?

A urticaria é uma doença frequente?

Trata-se de uma patologia comum, afectando todas as faixas etárias, estimando-se que cerca de 80% da população em algum momento da sua vida tenha pelo menos um episódio de urticária. O nome deriva da reacção que a urtiga fresca provoca quando em contacto com a pele.

Como se caracteriza a urticaria?
É caracterizada pelo aparecimento de pápulas (lesões cutâneas ligeiramente elevadas em relação à pele sã), eritematosas (avermelhadas) algumas vezes esbranquiçadas na parte central, acompanhadas de prurido (comichão),desaparecendo por breves segundos após pressão. Estas lesões regridem espontaneamente ou com terapêutica, sem pigmentação residual num período de 24 horas podendo recorrer.

Em alguns casos o edema da hipoderme pode ser tão importante que dá origem ao aparecimento de angioedema (inchaço) labial e palpebral. Pode ter um carácter agudo (duração inferior a 4 semanas), sub-agudo (duração de 4 a 6 semanas), ou crónico (duração superior a 6 semanas).

Urticária aguda – é a mais frequente, existindo na maioria dos casos uma relação óbvia causa/efeito, resultante de uma reacção de hipersensibilidade ou intolerância ao agente etiológico. São mais frequentes nas crianças e adultos jovens. Raramente necessitam de uma avaliação diagnóstica exaustiva e respondem bem à terapêutica.

Urticária crónica – é menos frequente,mas exige uma abordagem diagnostica mais aprofundada, muitas vezes morosa, com maior dispêndio em exames complementares e também na procura do esquema terapêutico mais eficaz. Afecta principalmente o sexo feminino, na 3ª e 4ª décadas de vida. A duração é muito variável, podendo estender- se em cerca de 50% dos casos até 6 meses, ou mesmo ter uma duração superior a 10 anos (em cerca de 20% dos casos).

Urticária sub-aguda – evolui na grande maioria dos casos para uma forma crónica.

Qual o mecanismo de acção que leva à urticária?
Após contacto com o alergénio a que o indivíduo está sensibilizado, dá-se a desgranulação dos mastócitos, células existentes na pele e mucosas, com libertação de histamina, citocinas e outros mediadores da inflamação, dando início a uma série de processos bioquímicos e intervenções celulares que culminam com o aparecimento e manutenção das lesões de urticária. Muitas vezes esta reacção é desencadeada por outros mecanismos de natureza não alérgica, com activação directa dos mastócitos.

Quais as causas que podem desencadear uma urticaria?
Medicamentos – causa frequente de urticária aguda.Em muitos casos é uma reacção alérgica ao fármaco (ex. antibióticos como penicilina, sulfonamidas, etc.), embora possam também estar implicados mecanismos não imunológicos, quer por activação directa dos mastócitos (ex. opiácios, alguns antibióticos, curarizantes, produtos de contraste, etc.), quer por intolerância (ex. anti-inflamatórios não esteroides como a aspirina). Em alguns casos os hemoderivados (ex. Transfusões sanguíneas) bem como vacinas podem despertar reacções agudas.

Alimentos e aditivos – os alimentos são causa frequente de urticária aguda após ingestão São exemplos o marisco, o peixe, os ovos, o leite, os frutos secos (amendoim, noz, amêndoa, avelã, etc.), os frutos frescos (kiwi, maçã,melão, citrinos,etc.), vegetais (cenoura, couve, aipo, etc.), leguminosas (feijão,ervilha, soja, etc.), tubérculos (batata), cebola, alho, farinhas e outros alimentos e aditivos alimentares (ex. sulfitos, aspartame, parabenos, tartrazina, monoglutamato de sódio, nitratos e nitritos, hidroxitolueno butilado,benzoatos, etc.).
Alguns alimentos com elevado teor em histamina (ex. atum, cavala), ou alimentos e aditivos alimentares histamino-libertadores (ver lista) podem favorecer o aparecimento de lesões de urticária por mecanismo não alérgico.

Alguns alimentos e aditivos favorecedores da libertação de histamina
• Peixe e crustáceos
• Carne de porco e produtos de charcutaria
• Frutos como banana, morango, kiwi e a generalidade dos frutos tropicais
• Frutos secos
• Hortícolas como tomate e acelga
• Cogumelos
• Queijos fermentados
• Aromatizantes como cacau, baunilha, malte, cola
• Especiarias
• Edulcorantes, corantes, conservantes e activadores de aroma
• Infusões: café e chá
• Gaseificados
• Álcool

Agentes biológicos – os venenos de himenópteros (abelha, abelhão, vespa, vespão) são uma causa evidente de urticária aguda. Esta é uma situação de relativa raridade, mas que obriga a um diagnóstico preciso de alergia ao veneno, no sentido de iniciar com brevidade um tratamento de dessensibilização.

Físicas – são a principal causa de urticária crónica. Estas caracterizam-se pelo aparecimento de lesões após aplicação de um estímulo físico na pele. São exemplos a fricção (dermatografismo), frio (urticária ao frio), pressão (urticária de pressão), vibração (urticária vibratória), luz solar (urticária solar), água (urticária aquagénica).
A urticária colinérgica consiste no aparecimento de urticária generalizada transitória, após exercício físico, calor ou emoção.
É frequente os factores físicos exacerbarem os quadros de urticária crónica já existentes.

Contacto – o contacto com algumas substâncias por mecanismo imunológico, ou não imunológico pode despertar o aparecimento de lesões.

Infecções – virais podem despertar reacções urticariformes, em geral auto-limitadas. São exemplo os vírus coxsackie e enterovirus,principalmente na criança, e os vírus Epstein Barr (mononucleose infecciosa), citomegalovirus, herpes simplex e vírus da hepatite.Discute-se ainda o papel das infecções bacterianas como origem de síndromes urticarianos. Nas áreas endémicas as infestações por parasitas (helmintas) poderão estar na origem destas manifestações.

Patologia autoimune – a urticária pode ser o sintoma inaugural ou associado a doença sistémica subjacente nomeadamente tiroidite auto-imune, lúpus eritematoso sistémico e outras conectivopatias, urticária auto-imune, etc.

Outrasvasculite urticariana com presença de agressão vascular, angioedema hereditário por déficit de inibidor da esterase C1 uma proteína existente no soro, urticária papular na criança, motivada pela reacção de hipersensibilidade à picada de um insecto. O stress emocional é um factor muito importante capaz de condicionar a evolução clínica da urticária. Outras causas menos frequentes resultam de alterações hormonais (na mulher), formas familiares e de forma excepcional as neoplasias, particularmente alguns tipos de linfomas.
A urticária recorrente ou idiopática é um diagnóstico de exclusão. Após investigação aprofundada não se encontra uma causa evidenciável. Podem evoluir por longos períodos de tempo e interferem, claramente, na qualidade de vida destes doentes.

Como se faz o diagnóstico?
Nas formas agudas,habitualmente, não é necessário qualquer tipo de estudo uma vez que a relação causa-efeito é na maioria das vezes evidente. Na urticária crónica uma história clínica aprofundada é fundamental para orientar a investigação. O estudo laboratorial deverá ser simultaneamente abrangente e direccionado. O diário de sintomas, o registo alimentar e exames como os testes cutâneos de alergia, provas cutâneas específicas do diagnóstico de urticárias físicas, estudo laboratorial e imagiológico (radiografia, ecografia), provas de provocação com alimentos, medicamentos, ou aditivos alimentares e eventualmente biopsia de pele, orientados pela suspeição clínica, em muitos casos ajudam ao diagnóstico.

Em que consiste o tratamento?
Algumas medidas podem ser úteis para aliviar o prurido, principalmente à noite: duche tépido e/ou aplicação de loção de calamina ou de creme antipruriginoso. É fundamental a hidratação cutânea com aplicação de emolientes, particularmente nas formas crónicas. A evicção do ou dos alergénios ou desencadeantes responsáveis pela sintomatologia, quando evidenciáveis, é fundamental para o não aparecimento das lesões.

Quanto à terapêutica farmacológica, a maioria das urticárias responde bem à utilização de anti-histamínicos. Ocasionalmente é necessária a administração de corticosteroides sistémicos injectáveis ou administrados por via oral particularmente nas situações hiper-agudas, mas sempre acompanhados por terapêutica subsequente com anti-histamínicos em períodos relativamente prolongados para controlo clínico sustentado.

Na urticária crónica estes fármacos são, também, a principal arma terapêutica, associando-se por vezes diferentes medicamentos dependendo da gravidade. Os anti-leucotrienos representam em alguns doentes um benefício adicional. Os antihistamínicos sedativos deverão ser reservados para situações clínicas muito particulares e os de aplicação tópica não deverão nunca ser utilizados. Em alguns casos são administrados outros tratamentos orientados pelo diagnóstico (ex. Imunoglobulinas endovenosas, salazopirina, tratamento da doença sistémica de base), mas sempre submetidos a estrita vigilância clínica.

Autora: Drª Beatriz Tavares

Apoio Institucional:
Responsabilidade e apoio científico da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica
spaic@spaic.pt.
www.spaic.pt

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