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Obesidade


O que é a obesidade?
Quando é que um indivíduo tem excesso de peso ou obesidade?
Qual é o impacto da obesidade na população?
Qual é a influência dos genes na obesidade?
Quais os factores do ambiente que contribuem para a obesidade?
Como é feito o diagnóstico?
É necessário realizar exames na avaliação da obesidade?
Quais as doenças associadas à obesidade?
Como se pode prevenir a obesidade?
Qual é o objectivo de um programa de emagrecimento?
Como posso emagrecer?
Quando está indicado a medicação?
Quando está indicado a cirurgia?

ObesidadeO que é a obesidade?
A obesidade consiste num excesso de gordura depositada no tecido adiposo que conduz a um peso corporal superior ao desejável. O número de obesos tem vindo a aumentar rapidamente, tendo sido considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) um problema de saúde pública importante.

Quando é que um indivíduo tem excesso de peso ou obesidade?
Aceita-se o Índice de Massa Corporal (IMC=peso/altura2) como a medida standard internacional de avaliação da gordura corporal nos adultos. A classificação da OMS considera excesso de peso os indivíduos com IMC compreendida entre 25 a 29,9 kg/m2 e classifica obesidade superior a 30 kg/m2.

Qual é o impacto da obesidade na população?
A prevalência da obesidade é maior nos países industrializados e nas zonas urbanas. O excesso de peso afecta cerca de 10 a 25% dos adultos da Europa Ocidental e 20 a 25 % no continente Americano. Calcula-se que a obesidade nas crianças se aproxime dos 10% e que 30% destas crianças tornar-se-ão obesas em adultos. Em Portugal estima-se que 1/4 a 1/3 dos adultos tenham excesso de peso e 1/4 sejam obesos.

Qual é a influência dos genes na obesidade?
A obesidade é uma doença complexa e multifactorial que se desenvolve da interacção entre o genes e o ambiente. Existe actualmente evidência da importância que a influência genética tem no desenvolvimento da obesidade. Segundo alguns estudos o peso específico da acção genética é superior a 50%. Os humanos possuem um gene idêntico à proteína "leptina", levando ao aumento do peso quando aquela proteína está alterada.

A influência genética é apoiada pela seguinte constatação - um ou os dois progenitores obesos têm 40% e 80% de probabilidade de ter filhos obesos, respectivamente. Também as crianças adoptadas têm um peso mais próximo dos pais biológicos. E os gémeos monozigóticos (gémeos verdadeiros) têm pesos mais semelhantes que os dizigóticos (falsos gémeos).

Quais os factores do ambiente que contribuem para a obesidade?
Não existe ainda a compreensão completa sobre todas as causas que favorecem a obesidade. Estão contudo, identificados os principais factores relacionados com o ambiente que contribuem para o seu desenvolvimento:

• os estilos de vida sedentários resultante do crescente número de actividades diárias com baixo consumo de energia, como por exemplo o uso de elevador.
• a ingestão crónica e excessiva de calorias, estimulada pelo desenvolvimento de alimentos com excesso de calorias, (relacionada com o crescimento da indústria do fast food), e a maior disponibilidade de tempo para socialização e consequente consumo de comida e bebidas.

Outras causas menos frequentes estão relacionadas com algumas doenças, nomeadmente o hipotiroidismo e o síndrome de Cushing. Também existem alguns fármacos que poderão provocar aumento de peso, como os anabolizantes esteróides, corticóides, progestagéneos e alguns antidepressivos.

Como pode ser feito o diagnóstico?
Não é apenas a avaliação do Índice da Massa Corporal que determina o risco para saúde, mas também a distribuição da gordura no organismo. De acordo com as últimas recomendações técnicas aconselha-se que a avaliação do peso tenha em conta três avaliações:

1. Índice de Massa Corporal, que permite definir as seguintes categorias:
• Excesso de peso: IMC 25 - 29.9 kg/m2
• Obesidade ligeira : IMC 30 - 34.9 kg/m2
• Obesidade moderada: IMC 35 - 39.9 kg/m2
• Obesidade grave: IMC > 40 kg/m2

2. Perímetro da cintura. Estudos demonstram que a medição do perímetro da cintura é o melhor marcador da gordura abdominal. Considera-se que uma pessoa tem um risco elevado quando o perímetro da cintura é superior a 102cm no homem e 88 na mulher.

3. A detecção de factores de risco para as doenças cardiovasculares e outras patologias associadas à obesidade, nomeadamente a diabetes mellitus, hipertensão arterial e o doseamento do colesterol e triglicerídeos.

Existem, no entanto, outros métodos que permitem avaliar a obesidade, nomeadamente:

• Tabelas de peso e altura, actualmente em desuso, fornecem intervalos de peso desejável para adultos tendo em conta a altura e biótipo.
• Percentil de peso, é utilizado nas crianças para a definição de obesidade. Considera-se uma criança obesa, quando o seu peso da criança está acima do percentil 95 ou existam mais de 2 desvios-padrão acima da referência média do peso para altura.
• Espessura de pregas cutâneas, nomeadamente do braço, abdómen ou dorso. Permite uma avaliação fácil da gordura no corpo, mas não avalia a gordura perivisceral (gordura que envolve internamente os orgãos)
• Relação cintura/anca. Determinar se a obesidade é andróide quando a relação é superior a 1, ou ginóide quando inferior a 1; sendo o risco de doenças cardiovasculares superior no primeiro caso.

É necessário realizar exames na avaliação da obesidade?
Tem interesse realizar alguns exames complementares de diagnóstico na avaliação de uma pessoa obesa, com o objectivo de detectar uma eventual doença associada como causa para a obesidade.

Dos exames que se devem realizar estão incluídos: hemograma, plaquetas, urina tipo II, velocidade de sedimentação, glicémia em jejum, função renal e hepática, estudo hormonal da tiróide e metabolismo lipídico. Em doentes com obesidade, hipertensão e/ou intolerância aos hidratos de carbono está aconselhado o doseamento no sangue e urina do cortisol. A realização de um electrocardiograma está recomendada aos obesos com mais de 50 anos.

Quais as doenças associadas à obesidade?
A obesidade está relacionada com a mortalidade aumentada, tendo sido determinado quatro graus de risco de doença associada de acordo com o IMC:

IMC Risco
25 - 29,9 Baixo
30 - 34,9 Moderado
35 - 39,9 Alto
> 40 Muito alto
<
As doenças associadas que ocorrem com maior frequência nos obesos são:

• Hipertensão - com um IMC entre 27 e 29 existe um risco acrescido de 38 e 45% para desenvolver HTA, respectivamente no homem e mulher.
• Diabetes mellitus do tipo II - em adultos, o ganho de 5 kg em 8 anos está associado a um aumento significativo do risco de diabetes. Cerca de 80-90 % dos diabéticos do tipo II são obesos.
• Colesterol elevado - é mais significativa na obesidade.
• Doença das artérias coronárias e acidentes vasculares cerebrais (AVC) – os eventos cardiovasculares estão intimamente associados à obesidade, especialmente as pessoas que têm gordura abdominal.
• Doenças osteo-degenerativas - cada kg de aumento no peso leva a um incremento no risco de desenvolver artroses dos joelhos. Por outro lado, o desenvolvimento das artroses geralmente leva à diminuição da mobilidade e consequente aumento de peso
• Perturbações psicossociais - depressão, frustação, isolamento.

Existem ainda outras patologias que também se encontram mais frequentemente nos obesos, nomeadamente os cancros do cólon, recto, próstata, vias biliares, endométrio, mama e ovário. Também as varizes dos membros inferiores, apneia do sono, doenças tromboembólicas, litíase biliar e renal, esofagite de refluxo, gota e diminuição da capacidade respiratória, são problemas de saúde associadas à obesidade.

Como se pode prevenir a obesidade?
A prevenção do aumento de peso implica:

• Vigilância do peso mensalmente
• Prática de exercício físico regular
Dieta saudável

Dado que em média 2/3 do peso perdido é recuperado após um ano e ao fim de 2 anos apenas 20% dos indivíduos conseguem manter uma redução de cerca de 10 kg, uma vez atingido o objectivo de emagrecimento, impõe-se estabelecer um programa para a manutenção do peso. O controlo do peso deve ser uma prioridade após os 6 meses iniciais do plano de emagrecimento, dentro de um programa combinado de dieta, exercício físico e apoio comportamental.

Qual é o objectivo de um programa de emagrecimento?
Antes de discutir as opções de tratamento é importante definir qual é o objectivo de um programa de emagrecimento. Existe evidência que muitos indivíduos têm expectativas pouco realistas sobre a quantidade de peso que conseguem perder com um programa de emagrecimento. Habitualmente a pessoa obesa pretende perder o máximo peso num período de tempo mínimo. Em qualquer plano um objectivo realista é a redução ligeira, gradual e mantida de peso.
Para algumas pessoas em determinadas circunstâncias da vida, não ganhar mais peso pode ser um objectivo realista e adequado.

Como devo emagrecer?
Uma vez estabelecida a necessidade de proceder a um plano de emagrecimento, devem ser acautelados os seguintes passos:

1. Traçar objectivos realistas - programar uma perda de peso de 10% ao longo de 6 meses, à velocidade de 0,5-1 kg por semana.

2. Dieta - cumprir um regime alimentar de baixas calorias. A dieta deve ser individualizada, tendo em conta a disponibilidade económica, a cultura alimentar e as preferências da pessoa, de modo a produzir um déficit de 500 a 1000 kcal/dia.

3. Actividade física – está recomendada como parte de um plano terapêutico, dado que contribui para a perda de peso, diminui a gordura abdominal e aumenta a capacidade cardiorespiratória. Deve-se iniciar com níveis de actividade ligeira a moderada de acordo com o treino físico, nomeadamente a capacidade cardíaca e pulmonar, com o objectivo de realizar exercício físico regularmente durante 30-45 minutos, 3-5 dias por semana.

Quando está indicado a medicação?
Os fármacos aprovados para o emagrecimento devem ser usados em doentes com IMC > 30 sem factores de risco concomitantes ou IMC > 27 se estes existirem, após 3 meses ineficazes de dieta e exercício. Os medicamentos não devem ser utilizados sem investimento nas alterações de estilos de vida.
Existem vários fármacos para o tratamento da obesidade:

Sibutramina, é um novo inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina, que pode ser benéfica na redução do risco cardiovascular, tendo em conta os seus efeitos na redução do peso, no perímetro da cintura e no metabolismo das gorduras e açucares. Alguns estudos demonstraram que este fármaco pode originar um aumento da pressão arterial, pelo que o seu uso está contra-indicado em doentes com hipertensão não controlada.

Orlistat é um inibidor específico das lipases intestinais, reduzindo em 30% a absorção de gorduras. O tratamento deve ser acompanhado de uma dieta hipocalórica. Uma cápsula de 120 mg deve ser tomada antes, durante ou após as 3 refeições principais, até 2 anos. Surgem como efeitos secundários mais comuns a flatulência, fezes oleosas e urgência fecal. É dispendioso.

Quitosano é uma fibra natural derivada do marisco que fixa a gordura ingerida, impedindo a absorção.
Alguns estudos têm investigado as potencialidades do tratam
ento da obesidade com metformina (antidiabético oral), em particular nos doentes com obesidade abdominal conotada com hiperinsulinismo e resistência à insulina.
Os catecolaminérgicos (anfetaminas e derivados: clobenzorex e fenpropex) não estão indicados porque provocam dependência, tolerância, taquicardia, palpitações, agitação e insónias. Os serotoninérgicos (fenfluramina e dexfenfluramina), foram retirados do mercado após detecção de efeitos secundários a nível das válvulas cardíacas e hipertensão pulmonar. Os novos antidepressivos como a fluoxetina, sertralina e paroxetina podem ter como um dos seus efeitos a perda de apetite, embora não estejam aprovados com essa indicação.

Os medicamentos aumentam a adesão do indivíduo ao regime alimentar, ao exercício físico, mas não curam a obesidade. Quando suspensos ou não tomados, o peso tende a aumentar de novo, se não houver modificação do comportamento relativamente aos hábitos alimentares e actividade física.

Quando está indicado a cirurgia?
A cirurgia destina-se a doentes seleccionados, com IMC > 40 ou os indivíduos que possuem um IMC > 35 associado a uma elevado risco de doenças e mortalidade associada à obesidade, e quando foi estabelecido que outros métodos não resultaram. O sucesso desta cirurgia pressupõe o acompanhamento por uma equipa multidisciplinar treinada, que deve incluir endocrinologista, cirurgião, anestesista, nutricionista/dietista, psiquiatra/psicólogo, em articulação com o seu médico assistente.

Autoria: Mário Santos

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