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Infecções recorrentes

Porquê a infecção?
Qual é a função do sistema imunológico?
Qual é a primeira linha de defesa contra as infecções?
Quantas infecções são consideradas muitas?
O que são infecções comuns?
Que tipo de infecções nos preocupam?
Como se caracterizam as Imunodeficiências Primárias?
Todos nós vivemos rodeados por um grande número de micróbios e temos, pelo menos, uma infecção ao longo da vida. No entanto algumas pessoas têm infecções recorrentes, que se quantificam pelo número de episódios infecciosos por ano e necessidade recorrer à antibioterapia. Quando o doente com história de infecções é orientado para o especialista de Imuno-Alergologia algumas questões importantes se lhe colocam: Quantas infecções por ano afectam o doente? Que tipo de infecções afectam o doente? Existe alguma razão identificável para as infecções? O que se pode fazer para prevenir estas infecções?

Porquê a infecção?
A infecção ocorre quando o agente infeccioso invade o organismo. Esta invasão por vírus, bactérias ou fungos depende da exposição e da susceptibilidade do indivíduo. No dia a dia estamos constantemente expostos a um grande número de agentes infecciosos, este contacto inicia-se na idade pediátrica nomeadamente através do contacto com outras crianças nos infantários. As pessoas que trabalham ou frequentam locais públicos têm maior probablidade de se infectar do que as não contactam com o público.

Qual é a função do sistema imunológico?
A avaliação da susceptibilidade às infecções é complexa. De facto, nós somos todos susceptíveis às infecções provocadas por um grande número de micróbios mas a integridade do nosso sistema imunológico impede a invasão dos agentes infecciosos. Assim o objectivo do sistema imunológico é prevenir as infecções através do reconhecimento dos agentes, ataca-los e destrui-los antes de causarem infecção. O sistema imunológico tem uma particularidade única, isto é tem a capacidade de conhecer os microrganismos e de se relembrar destes ao longo da vida.

Algumas famílias de microrganismos têm estruturas semelhantes e o sistema imunológico perante um dos membros da família organiza resposta protectora aos outros membros enquanto que noutras famílias a resposta do sistema imunológico é individualizada. Uma vez que o sistema imunológico organiza a resposta protectora a um dado microrganismo proporciona assim uma protecção à infecção para aquele microrganismo.

Qual é a primeira linha de defesa contra as infecções?
Normalmente o funcionamento do sistema imunológico não é o único factor determinante na susceptibilidade à infecção. A primeira linha de defesa contra as infecções está localizada na barreira que contacta com o ambiente onde se encontram os agentes infecciosos, isto é a pele, as vias respiratórias e as membranas mucosas. Assim a pele lesada é mais susceptível de infectar do que a pele intacta. A irritação, o edema e a destruição das membranas mucosas que revestem o nariz, seios perinasais e árvore respiratória promovem condições para crescimento e proliferação dos agentes infecciosos. A alergia ao pó doméstico, pólens e fungos são causas frequentes de inflamação das vias aéreas que condicionam maior susceptibilidade para as infecções.

Quantas infecções são consideradas muitas?
Antes de responder a esta questão é necessário ter a certeza que estamos perante verdadeiras infecções. Muitas pessoas confundem rinite alérgica, que se manifesta por obstrução nasal, rinorreia e crises esternutatórias, com uma constipação ou uma sinusite. O Imuno-Alergologista é o especialista que melhor diferencia a alergia da infecção. Uma vez excluída a alergia é necessário avaliar se as infecções reflectem a exposição a outras pessoas infectadas ou se estas infecções são um sinal de alerta para uma maior susceptibilidade do indivíduo, devido a um problema de sistema imune chamado de imunodeficiência.
Os Imuno-Alergologistas muitas vezes utilizam a frequência do recurso à antibioterapia como marcador de ocorrência de infecções.

O que são infecções comuns?
As infecções mais frequentes são as infecções respiratórias virais - designadas vulgarmente de constipações. A média de constipações nas crianças de idade pré-escolar e primeiro ciclo do ensino básico é de 6 a 12 constipações por ano, com a duração habitual de 5-10 dias. Estas infecções resultam do estreito contacto com crianças infectadas e pelo facto do seu sistema imunológico ser ainda imaturo. Uma vez alcançada a maturidade do sistema imunológico a criança é infectada com menor frequência. As faringites também são consideradas uma “doença social”, as crianças e adultos infectam-se porque estão em contacto estreito com doentes infectados. Embora se desconheça a razão das faringites de repetição estas raramente são indicadores de imunodeficiência.

Que tipo de infecções nos preocupam?
Os doentes com imunodeficiência têm os mesmos tipos de infecções do que as pessoas saudáveis - otites, sinusites e pneumonias. Contudo, estas infecções ocorrem com maior frequência, gravidade e risco de desenvolver complicações. Os doentes com o diagnóstico de imunodeficiência têm maior probabilidade de desenvolver infecções em orgãos internos (ósseas, articulares, hepáticas, cardíacas e cerebrais). Em algumas formas de imunodeficiência os doentes são susceptíveis às infecções a fungos ou outros microrganismos pouco habituais. Na maioria dos doentes é a frequência das infecções que motiva a investigação de imunodeficiência, noutros uma única infecção a um microrganismo pouco habitual é motivo para essa investigação.

Como se caracterizam as Imunodeficiências Primárias?
São consideradas infecções respiratórias recorrentes:
• Necessidade de recorrer à antibioterapia mais de 4 vezes por ano;
• Ocorrência de mais de 8 novas otites por ano;
• Ocorrência de mais de 4 episódios de sinusite por ano;
• Necessidade de recorrer à antibioterapia endovenosa para controlar as infecções;
A existência de duas ou mais infecções em orgãos internos ou uma infecção em orgão interno em doente com infecções respiratórias recorrentes, alerta para a necessidade do estudo do sistema imunológico
.
É importante monitorizar as infecções nas crianças,
principalmente nas mais pequenas, porque as imunodeficiências mais graves ocorrem habitualmente nos primeiros anos de vida.
A infecção persistente a Candida albicans (fungo) na boca ou pele, diarreia prolongada ou tosse persistente, são sinais que sugerem a necessidade de uma avaliação médica. Quando o médico de família verifica que um doente tem infecções que excedem os limites da normalidade, a avaliação de imunodeficiência impõe-se pelo especialista de Imunoalergologia. O facto da alergia contribuir muitas vezes para uma maior susceptibilidade às infecções e alguns doentes com formas particulares de imunodeficiência (défice de IgA) terem maior risco de desenvolver alergia, os testes cutâneos fazem parte da avaliação destes doentes.

Estão descritas mais de 100 tipos de imunodeficiências primárias, com diferentes quadros clínicos e gravidade variável. Nas formas mais graves e, na ausência de tratamento específico, o doente morre por infecção nos primeiros meses de vida, pelo contrário nos casos de deficiência ligeira do sistema imunológico, o doente pode fazer uma vida normal.

A forma mais comum de imunodeficiência é o defeito de proteínas de defesa, designadas de anticorpos (IgG, IgA e IgM). Os anticorpos são proteínas que atacam os micróbios ajudando assim o organismo a libertar-se destes. O número de anticorpos produzido por um doente pode ser determinado através de uma análise do sangue. Para completar a avaliação do sistema de anticorpos, pode ser necessário determinar o nível de anticorpos específicos antes e 4 semanas depois da administração de vacina específica. Outras formas de imunodeficiência podem ser diagnosticadas por testes cutâneos específicos ou testes mais sofisticados em laboratórios especializados. Nalgumas formas particulares de défice grave de anticorpos (Imunodeficiência Comum Variável), para além da terapêutica precoce com antibióticos os doentes têm indicação para fazer terapêutica de substituição com gamaglobulina (transfusão de anticorpos) mensal.

Auttora: Drª Amélia Spínola Santos

Apoio Institucional:
Responsabilidade e apoio científico da Sociedade Portuguesa de Alergologia e
Imunologia Clínica
spaic@spaic.pt.
www.spaic.pt

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