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Em que consiste o tratamento?
As grandes linhas do tratamento das infecções urinárias incluem:
1.Medidas gerais;
2.Tratamento antimicrobiano (antibiótico);
3.Tratamento urológico, que remova, em caso disso, os factores predisponentes, de manutenção e de agravamento.
1. As medidas gerais no tratamento das infecções urinárias são um complemento importante deste e da sua profilaxia, estimulando as defesas e melhorando os aspectos congestivos e irritativos locais.
Assim, aconselham-se:
- Aumento da ingestão hídrica - beber muita água e chás;
- Esvaziamento urinário frequente e completo;
- Cuidados gerais de higiene íntima, embora não excessivos;
- Evitar as situações de congestão pélvica, tais como;
- Viagens prolongadas, estar muito tempo sentado;
- Calças e cintas muito apertadas;
- Comidas e bebidas "irritantes", como: condimentos, especiarias, álcool, café, bebidas ácidas ou alcalinas, etc.;
- Alterações do trânsito intestinal, nomeadamente obstipação;
- Alterações do foro ginecológico, relações sexuais traumatizantes.
Aconselha-se a micção após o coito, nas mulheres com actividade sexual.
Poderão ainda ser utilizados medicamentos ou substâncias naturais que estimulam o sistema natural de protecção (imunoestimulantes).
2. Quanto ao tratamento antimicrobiano, o antibiótico ideal será aquele mais adequado à bactéria em causa, com menos efeitos colaterais, de posologia cómoda e baixo custo. A dose e a duração do tratamento serão determinadas pelo médico, conforme as circunstâncias; eventualmente, em casos especiais de infecções recidivantes ou persistentes, poderá ter que se fazer um tratamento prolongado, de manutenção ou profiláctico, com baixa dose de um antimicrobiano seleccionado. Os casos especiais da gravidez e da infância põem alguns problemas específicos na escolha do antibiótico, assim como as prostatites, devido a especificidades de entrada de alguns antibióticos na próstata.
3. O tratamento urológico pode ser para eventual drenagem e/ou para remoção de factores predisponentes, de manutenção e de agravamento, por exemplo correcção de obstrução urinária, extracção de cálculos, etc.. Também é fundamental a correcção de factores gerais, como a imunodepressão, a diabetes e o abuso de analgésicos.
Conclusão
As infecções urinárias, de uma maneira geral, podem ser complicadas ou não complicadas, conforme existem ou não factores de agravamento que põem em risco os rins e a sua função, ou a própria vida. Esses factores de agravamento incluem a imunodepressão, a diabetes, o abuso de analgésicos e múltiplas doenças urológicas, sobretudo as que condicionam obstrução urinária. Também as infecções causadas por micróbios que provocam cálculos (alguns Proteus) são consideradas complicadas. As infecções não complicadas podem causar sintomas aborrecidos e eventualmente severos, ser incapacitantes e impertinentes, mas não são graves, em termos de risco renal ou de vida. As infecções urinárias podem também ser agudas, crónicas (persistentes), ou recorrentes (recidivantes), neste caso com duas hipóteses:
1) por recaída, em que o mesmo micróbio que provocou a primeira infecção e ficou apenas "adormecido" com a terapêutica antibiótica instituída, volta a "acordar" pouco tempo depois, se as condições se tornam propícias para provocar a recidiva, como acontece normalmente se existem factores de manutenção;
2) por reinfecção (90%), em que é outro micróbio independente da primeira infecção, já curada, que invade o aparelho urinário pouco tempo depois, porque os mecanismos de defesa estão diminuídos.
As infecções urinárias da mulher adulta são frequentemente não complicadas, embora possam ser muitas vezes recorrentes (recidivantes), na grande maioria dos casos por reinfecção. Há que ter fundamentalmente uma atitude de profilaxia, para além do tratamento dos episódios agudos, se a investigação básica não revelar factores predisponentes, de manutenção ou de agravamento.
Nos bebés e crianças, existem muitas vezes malformações congénitas associadas às infecções urinárias que é necessário investigar e tratar. Para além disso, as consequências das infecções urinárias na infância podem ser de muito maior gravidade para a função renal do que nos adultos, pelo que é obrigatória uma atitude muito específica neste grupo etário.
Nas grávidas as infecções urinárias podem ter, em alguns casos, consequências mais gravosas do que no geral, quer para a grávida, quer para o feto, pelo que as infecções urinárias devem ser despistadas e tratadas com os antibióticos apropriados para este estado.
No adulto masculino, as infecções urinárias têm quase sempre um factor predisponente obstrutivo, e com frequência existe um componente de prostatite, pelo que, também aqui, o seu significado tem a sua especificidade, e a atitude a tomar tem que levar isso em consideração.
A analogia do Cerco ao Castelo
De uma forma geral e muito simples, mas imaginativa e sugestiva, a infecção urinária pode ser comparada com um cerco a um castelo. Os inimigos ("mouros", "castelhanos" "franceses") são os micróbios. O castelo é o nosso organismo. Existem uns inimigos especialmente perigosos - uma família de "mouros" terríveis, (que são alguns micróbios Proteus), com que há que ter especial cuidado sempre que eles invadem o castelo. O castelo, na grande maioria das situações, está em bom estado, sem deficiências aparentes, sem "buracos", e os inimigos entram porque as defesas - sentinelas - não são boas.
Umas vezes entram "mouros", outras "castelhanos", etc., conforme os inimigos que atacam, e para além do combate dessa altura, com eventuais reforços (os antibióticos), há que melhorar a qualidade dessas defesas com medidas gerais (ingestão líquida, esvaziamento vesical frequente, etc.) para evitar as reentradas periódicas. Quando isso acontece, essas infecções urinárias repetidas chamam-se infecções urinárias recidivantes por reinfecção.
Às vezes, apesar de aparentemente os inimigos terem sido vencidos com a ajuda de reforços (os antibióticos), fica um "espião" num esconderijo do interior do castelo, que abre depois e periodicamente as portas só aos seus "familiares e amigos" - os mesmos micróbios, sendo necessário descobrir e destruir o seu esconderijo (o factor de manutenção). Estas infecções urinárias repetidas chamam-se infecções urinárias recidivantes por recaída, e, existindo um factor de manutenção, têm um significado diferente das situações atrás descritas e mais frequentes de "más sentinelas - defesas fracas", em que os inimigos que entram e reentram no castelo variam.
Outras vezes, o castelo tem alguma deficiência (algum "buraco"), e, nesse caso, existem factores predisponentes, de manutenção, ou de agravamento das infecções urinárias, que há que resolver simultaneamente, para impedir definitivamente a entrada dos inimigos (tratamento urológico simultâneo para erradicar a infecção). Finalmente, há castelos com características próprias especiais, em que estes aspectos fundamentais podem variar (bebés, grávidas, homens, etc.).
Autor: Dr. Manuel Mendes Silva
Chefe de Serviço Hospitalar de Urologia do Hospital Militar Principal
Associação Portuguesa de Urologia www.apurologia.pt