Hepatite C

O que é a hepatite C?
Como se transmite o vírus da hepatite C?
Quem deve fazer o rastreio do vírus da hepatite C?
Como se manifesta a hepatite C?
Como se faz o diagnóstico de hepatite C?
O que significa a carga viral (RNA-HCV quantitativo)?
Quais os exames necessários a realizar após o diagnóstico?
Quais são as complicações possíveis da hepatite C?
Quando se considera que a hepatite C é crónica?
Quais os factores que agravam a evolução da hepatite C crónica?
Qual é a diferença entre hepatite crónica ligeira e hepatite crónica activa?
A hepatite C pode curar-se espontaneamente?
Qual é o tratamento recomendado para a hepatite C crónica?
Existe vacina contra a hepatite C?

O que é a hepatite C?
A hepatite é uma inflamação do fígado acompanhada por lesão das suas células, causada pelo vírus da hepatite C, que é constituído por ácido ribonucleico (RNA), e possui pelo menos seis tipos ou genótipos.

Qual é a sua frequência?
Estima-se que existam cerca de 150 000 portugueses que sofrem de hepatite C crónica, no entanto, a maioria não sabe que tem a doença. Calcula-se que apenas 20 a 30% dos pacientes estejam identificados.

Como se transmite o vírus da hepatite C?
A transmissão do vírus da hepatite C ocorre principalmente através de sangue contaminado. Durante muito tempo a transfusão de sangue foi a responsável pela contaminação de muitos indivíduos, antes de se iniciar o rastreio do vírus da hepatite C, que começou a realizar-se de forma sistematizada em 1992.

Outro meio fortemente contagioso do vírus é a toxicodependência, devido à partilha do material habitualmente usado no consumo intravenoso de drogas: agulhas, seringas, algodão ou a própria colher onde é preparada. Aqueles que “snifam” através do mesmo tubo podem contrair esta forma de hepatite, se houver contacto com lesões das mucosas nasais.

De um modo geral, todo o material partilhado não devidamente esterilizado, pode ser um veículo de transmissão do vírus, nomeadamente: lâmina de barba, escova de dentes, piercing, tatuagem, acupunctura, depilação ou material médico. A hepatite C não se dissemina pela saliva nem através dos alimentos. A via sexual é um meio possível mas raro (cerca de 2 a 5%). A transmissão vertical, isto é, de Mãe para filho, é rara durante a gravidez e acontece provavelmente no parto. Este risco está aumentado se a Mãe estiver infectada pelo vírus HIV. Não há evidência que o aleitamento materno seja um modo de contaminação do vírus.

Quem deve fazer o rastreio do vírus da hepatite C?
Têm indicação prioritária para serem rastreados em relação ao vírus da hepatite C:

- todos aqueles que tenham a suspeita clínica de uma hepatite
- todas as pessoas que tenham realizado um transfusão de sangue antes de 1992
- aos toxicodependentes e aos ex-consumidores (de drogas endovenosas)
- a todos aqueles que lidam com doentes infectados com o vírus da hepatite C (companheiro, parceiro sexual e filhos)
- pessoas que apresentem persistentemente transaminases (TGO e TGP) isto é enzimas do fígado elevadas, sem causa conhecida.
- reclusos ou ex-reclusos

Também devem ser submetidos ao rastreio:

- indivíduos seropositivos para o HIV
- aqueles que foram submetidos algum procedimento médico ou outro com a suspeita de utilização de material reutilizável não devidamente esterilizado, nomeadamente piercing, tatuagens, acupunctura, etç
- profissionais de saúde com história de acidente de picada com objectos cortantes.

Como se manifesta a hepatite C?
A hepatite C é uma doença habitualmente silenciosa, isto é, não apresenta sintomas nem sinais específicos que leve o doente ou o médico a suspeitar de uma infecção provocada pelo vírus da hepatite C. Na maioria dos casos o conhecimento da infecção é obtido após a realização casual de análises de rotina que revelam alterações das enzimas a nível do fígado. Algumas vezes ocorrem sintomas sugestivos de uma infecção gripal – cansaço, dores articulares, musculares e de cabeça, febre – e passam de forma despercebida sem deixar qualquer sinal da passagem do vírus da hepatite C pelo organismo. Nesta fase aguda da doença podem ser detectados anticorpos da hepatite C.

Apenas em cerca de 10% dos casos de hepatite aguda, surge icterícia (cor amarelada da pele), que resulta da acumulação da bilirrubina no sangue e subsequentemente na pele e escleróticas, devido ao mau funcionamento do fígado na eliminação da bílis. As fezes podem torna-se claras e a urina aparecer de cor escura a lembrar o “vinho do Porto”.

Como se faz o diagnóstico de hepatite C?
A detecção no sangue de anticorpos de hepatite C (anti HCV), permitem confirmar com rigor o diagnostico. Estes anticorpos podem aparecer em cerca de metade dos casos ainda durante a fase aguda da doença, isto é, 1 a 2 meses após o contagio, enquanto nos restantes casos, aparecem 1 a 2 semanas depois da fase aguda desta doença. Na hepatite C crónica, os anticorpos estão sempre presentes.

Quais são as complicações possíveis da hepatite C?
Ao contrário da hepatite A, que apenas possui a sua expressão aguda da doença e da bepatite B que evolui para a cronicidade em cerca de 5% dos indivíduos infectados, o vírus da hepatite C desenvolve a fase crónica da doença em cerca de 55% a 85% dos doentes. 20% destes progridem ao fim de muitos anos (20 a 30 anos) para a cirrose, que pode por sua vez evoluir para cancro do fígado em cerca de 30% das cirroses. Estas complicações podem não ocorrer se o vírus for debelado após tratamento médico ou se não houver actividade inflamatória do fígado (doença hepática crónica ligeira).

Quais os exames necessários a realizar após o diagnóstico?
A determinação do valor das transaminases (enzimas que revelam a destruição das células do fígado) permite ter conhecimento do grau de atingimento do fígado e da fase de desenvolvimento da hepatite C. A fase aguda caracteriza-se pela elevação de 10 a 50 vezes os valores normais das transaminases enquanto a fase crónica da doença o incremento das enzimas do fígado pode ir até 5 vezes, podendo mesmo apresentar valores normais (20% a 30% dos casos). Contudo, o nível de elevação das transaminases não traduzem a gravidade da doença. Para caracterizar a infecção é necessário determinar o genótipo do vírus e a carga viral (RNA-HCV quantitativo), aspectos vitais para ao tratamento e monitorização da doença.

Outras análises que revelam o funcionamento do fígado devem ser avaliadas: gama GT, bilirrubinas, fosfatase alcalina, electroforese das proteínas, devem fazer parte da avaliação laboratorial ao doente infectado. A ecografia ao fígado dá informação sobre o tamanho do fígado, que habitualmente se encontra aumentado (hepatomegalia) na hepatite aguda e diminuído na cirrose. Este exame permite também detectar alterações da estrutura do fígado, despistando tumores benignos ou malignos, bem como alterações das vias biliares, que podem estar obstruídas ou dilatadas.

A biópsia hepática é habitualmente necessária não só para confirmar a fase crónica da hepatite C, mas principalmente para:
- avaliar a actividade da doença,
- determinar o estado da fibrose (“cicatriz” que aparece após a destruição das células do fígado),
- despistar a presença de cirrose e
- determinar o seu prognóstico.
Nova biópsia pode ser repetida 3 a 5 anos, para avaliar a progressão da doença.

O que significa a carga viral (RNA-HCV quantitativo)?
A carga viral corresponde à quantidade de partículas víricas em circulação. Os seus níveis no sangue são habitualmente estáveis durante a evolução da infecção, permitindo saber quais os doentes que recidivaram após o tratamento, com os níveis de RNA-HCV a voltarem aos valores anteriores depois de uma negativação transitória. Cerca de 20% dos pacientes que se submetem ao tratamento não têm êxito. Aqueles que têm menor carga vírica têm maior probabilidade de sucesso terapêutico.

Quando se considera que a hepatite C é crónica?
Define-se infecção crónica por vírus da hepatite C, quando o RNA-HCV se mantem positivo em duas determinações consecutivas com um intervalo mínimo de seis meses. Se o RNA-HCV for negativo, não se pode diagnosticar uma hepatite crónica, apesar do anticorpo (anti-HCV) ser positivo.

Quais os factores que agravam a evolução da hepatite C crónica?
O álcool e a idade em que se contrai a doença são os principais factores agravantes da evolução da hepatite C. O álcool favorece a replicação do vírus e diminui as defesas imunitárias. Quanto mais idoso for o doente no momento do contacto com o vírus mais rapidamente progride a doença.

Qual é a diferença entre hepatite crónica ligeira e hepatite crónica activa?
Mais de metade dos pacientes que apresentam a cronicidade da hepatite C, não desenvolvem a actividade da doença, isto é, sofrem de hepatite crónica ligeira. Apenas em 35% dos pacientes a hepatite progride (hepatite crónica activa), verificando-se nestes casos um aumento das transaminases e queixas de cansaço. Destes indivíduos, 20% evolui para cirrose. Contudo a hepatite crónica ligeira pode tornar-se activa, sendo o contrário menos frequente.

A hepatite C pode curar-se espontaneamente?
Calcula-se que 15% a 45% dos pacientes que contraírem hepatite C aguda curam espontaneamente, o que acontece muito raramente nos casos de hepatite C crónica. Os doentes que erradicaram o vírus naturalmente (sem tratamento) mantém o anticorpo (anti HCV) no sangue, distinguindo-se do portador do vírus pela negativação repetida da carga viral (RNA-HCV quantificada).

Qual é o tratamento recomendado para a hepatite C crónica?
O tratamento combinado recomendado consiste no interferão “peguilado”, substância que ataca directamente o vírus, cuja acção é semelhante a um antivírico, em associação com a ribavirina, outro antivírico que reforça a acção do interferão. A eficácia do tratamento é cerca de 60%, dependendo o sucesso do tipo de genótipo (45% genótipo tipo 1 e 80% para o genótipo do tipo 2 e 3). A duração do tratamento pode variar de 24 a 48 semanas conforme o genótipo.

O sucesso terapêutico está também dependente da quantidade de carga vírica no início do tratamento, da diversidade da população vírica (a presença de mutações víricas simultaneamente num indivíduo dificulta a acção do interferão), da antiguidade da infecção (quanto mais antiga piora as probabilidade de cura), do estado imunitário (menor sucesso nos co-infectados com SIDA e transplantados), do consumo de álcool e do excesso de peso. 90% das recidivas ocorrem nos primeiros 3 meses depois do tratamento. Passados 6 meses as recaídas são excepcionais.

Existe vacina contra a hepatite C?
Não existe actualmente vacina disponível contra o vírus da hepatite C. A variabilidade do vírus dificulta a descoberta de uma vacina eficaz contra o vírus da hepatite C.

Autor: Dr. Mário Santos

Livro recomendado:
Título: 120 perguntas sobre Hepatite C
Autores: Patrick Marcellin e Thomas Laurenceau (coordenação científica da edição portiguesa: Rui Tato Marinho, José Velosa e Miguel Carneiro de Moura).
Editora: Quimera

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