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Alergia a látex



Mas, afinal, o que é a alergia ao látex?
Há dois tipos de reacção alérgica ao látex:
Como lidar com a alergia ao látex?


A alergia ao látex é um problema de saúde pública que, apesar de recente, tem vindo a tornar- -se cada vez mais importante, calculando-se que atinja 1% a 5% da população geral e 5% a 10% dos profissionais de saúde. O motivo mais provável para este aumento do número de pessoas afectadas pode estar relacionado com a utilização crescente de luvas de látex na protecção contra doenças infecciosas, principalmente a SIDA, e também por mudanças nos métodos de fabrico dos materiais de borracha.

O látex natural é obtido a partir de um líquido de aspecto leitoso segregado pela árvore da borracha, a Hevea brasiliensis. Após a colheita, este líquido é submetido a um processo de transformação em que são utilizados aditivos químicos para aumentar a velocidade de vulcanização e para evitar a oxidação. O látex assim obtido é depois utilizado numa grande variedade de produtos, referidos como sendo de borracha natural, de que são exemplo as luvas hospitalares e os balões festivos.O látex natural não deve ser confundido com a borracha sintética derivada do petróleo ou de materiais plásticos.

Mas, afinal, o que é a alergia ao látex?
À semelhança de todas as doenças alérgicas, resulta de uma reacção exagerada do sistema imunitário a substâncias que lhe são estranhas, neste caso as proteínas da árvore da borracha.

Os materiais e objectos de látex natural são utilizados em muitas situações da vida quotidiana, tanto no ambiente doméstico como profissional ou de lazer. Os produtos mais frequentemente implicados no desenvolvimento desta alergia são, no entanto, os que resultam de um processo de moldagem (produzidos em molde), tais como as luvas e os preservativos.
Mais raramente, as pessoas alérgicas ao látex também podem ter reacção a ligaduras, pensos, garrotes e outros dispositivos médicos, balões, brinquedos de borracha natural, chupetas ou tetinas de biberão, vestuário de látex ou elásticos em peças de tecido.

Há dois tipos de reacção alérgica ao látex:
A dermatite de contacto, também conhecida por eczema de contacto, resulta de uma reacção da pele a produtos químicos que são adicionados ao látex natural durante o processo de fabrico da borracha. Esta inflamação da pele surge cerca de 12-36 horas após o contacto e afecta principalmente a pele das mãos em pessoas que usam regularmente luvas de látex, sendo por este motivo muito frequente em profissionais de saúde e técnicos de laboratório. Apesar de ser uma inflamação causadora de sofrimento, muitas vezes com lesões crónicas debilitantes, não é porém susceptível de ameaçar a vida do doente.
Pelo contrário, as reacções alérgicas imediatas ao látex (proteínas) podem colocar em risco a vida do doente ou causar-lhe sérios transtornos de saúde. Estas reacções generalizadas (anafilácticas) são raras, felizmente, e caracterizam-se por uma diminuição súbita da pressão arterial, por dificuldade respiratória e por urticária e/ou edema na pele, devendo ser tratadas imediatamente,sob pena de graves consequências clínicas.
O maior risco de reacções graves ocorre quando há contacto directo com áreas húmidas do corpo ou durante operações cirúrgicas, na medida em que a substância é mais rapidamente absorvida para a corrente sanguínea.
A gravidade das reacções alérgicas ao látex depende do grau de sensibilidade pessoal e da quantidade de látex à qual a pessoa afectada fica exposta.

No entanto, o mais frequente é a ocorrência de vermelhidão, edema (inchaços) e comichão na pele quando há contacto directo com algum material de borracha.
O látex pode também ficar em suspensão no ar e, desse modo, provocar espirros, comichão no nariz e nos olhos, pieira (sibilância) e tosse causados pela inalação do pó das luvas de látex. Isto pode acontecer, por exemplo, em locais onde se trocam luvas com grande regularidade (geralmente em salas de operações, unidades de cuidados intensivos, salas de parto, unidades de endoscopia, laboratórios), já que o pó lubrificante das luvas, elaborado com amido de milho (antigamente era talco), liga-se às proteínas do látex e, quando se espalha no ar, pode entrar no aparelho respiratório, no nariz ou nos olhos e desencadear as manifestações clínicas de asma, rinite ou conjuntivite.

Há certos grupos de pessoas cuja probabilidade de vir a desenvolver alergia ao látex é mais elevada do que na população geral, provavelmente devido ao facto de terem uma maior exposição a esta substância. É o caso das crianças com espinha bífida ou malformações do aparelho urinário, em que a percentagem da doença pode atingir os 50%. Também os profissionais de saúde, que utilizam luvas diariamente, têm uma probabilidade maior de vir a ter este problema. Julga-se também que as pessoas anteriormente submetidas a múltiplos tratamentos médicos ou cirúrgicos, sobretudo quando já são alérgicas a outras substâncias, podem ter um risco maior de sensibilização ao látex.
No entanto, qualquer indivíduo, mesmo sem estes factores de risco, pode ter reacções alérgicas ao látex.
Um aspecto importante deste problema prende-se com o facto de certos alimentos (castanha, kiwi, banana, pêra-abacate, papaia, tomate, maracujá e outros) terem semelhanças, do ponto de vista bioquímico, com o látex. Por este motivo, pode haver reacções, por vezes graves, após a ingestão destes alimentos por pessoas alérgicas ao látex.

Como lidar com a alergia ao látex?
O tratamento da alergia ao látex baseia-se na aprendizagem de estratégias para lidar com esta doença, não só pelo doente mas também por familiares e colegas de profissão, motivo pelo qual devem ser todos adequadamente informados e esclarecidos. Se existir uma forte suspeita, o doente deve ser orientado para um especialista em Imuno-Alergologia, que fará os testes que entender necessários para o diagnóstico definitivo e para a instituição da terapêutica mais adequada. A prioridade na gestão deste problema será a de evitar o contacto com materiais de látex, principalmente se houver a necessidade de intervenções cirúrgicas, situação que envolve um risco elevado de reacções generalizadas e potencialmente fatais.

Quando um doente alérgico ao látex tem de usar luvas com regularidade, como é o caso dos profissionais de saúde, investigadores, técnicos laboratoriais e outros, deve passar a utilizar luvas de borracha sintética (vinil, por exemplo) e, não menos importante, os colegas de trabalho devem optar por luvas sem pó lubrificante e com baixo teor de proteínas; esta medida tem o propósito de diminuir as partículas com látex no ar ambiente e deve ser associada a uma ventilação e filtragem em boas condições técnicas. Esta preocupação deve ser maior nos doentes com sintomas do aparelho respiratório mas não deve ser descurada em circunstância alguma, enquanto medida profiláctica.

A utilização dos preservativos de venda corrente pode constituir um risco para indivíduos com elevada sensibilização ao látex,motivo pelo qual se recomenda a utilização de preservativos de borracha sintética, já disponíveis no mercado.
Actualmente já existe uma vacina anti-alérgica específica para o látex, o que permite encarar com maior optimismo a evolução clínica destes doentes, sem descurar porém, se necessário, a necessidade de medicamentos para o tratamento da asma, rinite e conjuntivite eventualmente causadas por este agente. Por outro lado, em algumas pessoas, a alergia é de tal modo grave que pode pôr em causa a sua vida, pelo que se justifica a prescrição de um estojo contendo uma injecção de adrenalina que o doente deve transportar consigo, permanentemente, juntamente com uma pulseira ou placa informativas.

Felizmente, os casos de trabalhadores alérgicos ao látex em que é necessário mudar o posto de trabalho ou efectuar uma reconversão profissional são cada vez mais raros; na grande maioria dos casos é possível ter uma vida profissional saudável e segura desde que se implementem as componentes de "gestão" da doença acima descritas.

Autor: Dr. Mário Miranda

Apoio Institucional:
Responsabilidade e apoio científico da Sociedade Portuguesa de Alergologia e
Imunologia Clínica
spaic@spaic.pt.
www.spaic.pt

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